Sociedade Braga Norte

Braga recupera memórias do rio em encontros intergeracionais nas praias fluviais

O Município de Braga promoveu a iniciativa «O tempo passa, a praia fica!» nas praias fluviais de Merelim São Paio e Adaúfe, juntando seniores e crianças para partilhar memórias de usos tradicionais do rio e transformá‑las em materiais educativos.

Braga recupera memórias do rio em encontros intergeracionais nas praias fluviais
©Ilustração Paulo Sampaio Guimarães / we-news.com

Recordar o quotidiano do rio para educar e preservar

As praias fluviais de Merelim São Paio e Adaúfe, em Braga, foram palco de dois encontros intergeracionais promovidos pelo Município no âmbito do desafio «Cápsula do Ambiente», lançado pela Associação Bandeira Azul de Ambiente e Educação para 2026. Sob o mote «O tempo passa, a praia fica!», a iniciativa reuniu seniores que viveram o rio como recurso essencial e crianças das comunidades locais, com o objetivo de registar e valorizar memórias associadas aos espaços ribeirinhos.

No encontro da Praia Fluvial de Merelim São Paio, um grupo de mulheres partilhou com 21 crianças do Centro Escolar de Merelim São Paio relatos sobre práticas quotidianas que, até há poucas décadas, marcaram a vida junto ao rio: lavar roupa nas rochas, transportar água e roupa «à cabeça» ou em carros de bois, banhos em tempos sem abastecimento domiciliário e o recurso contínuo à água para os animais.

Na Praia Fluvial de Adaúfe, os testemunhos de 15 utentes do Centro de Dia foram ouvidos por 52 crianças do ATL local. As memórias registadas incluíram a lavagem de colchões, a prática de colocar roupa a corar nas ilhas de areia, as travessias de barco entre margens e o transporte de cereais até aos moinhos ribeirinhos.

Da narração ao desenho: travessia de gerações

Após a fase de auscultação, as crianças traduziram as histórias em desenhos que foram apresentados aos seniores presentes, fechando assim um ciclo de partilha e reafirmação do valor cultural das praias fluviais. A ação pretendeu também sublinhar que a gestão ambiental não se limita à conservação dos ecossistemas: envolve a salvaguarda das práticas e memórias que definem a relação das comunidades com o território.

«Proteger o território implica também preservar as histórias, os conhecimentos e as práticas das comunidades que, ao longo de gerações, construíram uma relação profunda com os rios», afirmou Altino Bessa, vice‑presidente da Câmara Municipal de Braga.

A intervenção institucional enquadra‑se numa perspetiva de educação ambiental que vê no diálogo entre gerações uma ferramenta pedagógica: não só para transmitir saberes tradicionais, mas para oferecer às novas gerações uma leitura histórica do espaço que ocupam e utilizam como lazer.

  • Objetivo: Preservar memórias e promover educação ambiental intergeracional.
  • Locais: Praias fluviais de Merelim São Paio e Adaúfe.
  • Participação: 21 crianças em Merelim; 52 crianças e 15 utentes em Adaúfe.
LocalSenioresCrianças
Merelim São PaioGrupo de mulheres (número não especificado)21
Adaúfe15 utentes do Centro de Dia52

Para a autarquia, a recuperação destas memórias é simultaneamente uma ação de proteção do património imaterial e um complemento às políticas ambientais que visam conservar rios e margens. Ao valorizar práticas como a lavagem de roupa nas pedras ou as travessias em barco, a iniciativa contribui para uma leitura ampliada dos espaços fluviais: já não apenas áreas de lazer, mas testemunhos de modos de vida e de economias locais que moldaram a paisagem e a identidade das comunidades bracarenses.

O formato adoptado — sessões presenciais que combinam relatos orais e expressões artísticas das crianças — abre caminho a futuras ações de sensibilização que integrem escolas e equipamentos sociais. Ao registar e dar voz aos que testemunharam diretamente a história viva do rio, Braga procura reforçar a ligação entre políticas ambientais e memória colectiva, uma aposta que pode influenciar práticas de gestão territorial e programas educativos locais.

Num tempo em que a revalorização do território se cruza com desafios de sustentabilidade, estas iniciativas representam um esforço concreto para assegurar que o conhecimento tradicional não se perca com o envelhecimento das gerações e que as crianças aprendam a ver o rio como parte de uma história comunitária contínua.

Paulo Sampaio Guimarães
Paulo IA Correspondente no Porto online

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