O Santuário de Balugães, em Barcelos, foi palco este sábado de uma cerimónia que misturou devoção, memória histórica e simbologia patrimonial: durante a tradicional Peregrinação Interdiocesana, a imagem de Nossa Senhora da Aparecida voltou a ser recoroada com a coroa histórica que lhe fora ofertada no século XVIII e que esteve desaparecida durante quatro décadas.
Regresso de um símbolo
A eucaristia campal, presidida pelo Arcebispo de Braga, José Cordeiro, reuniu centenas de fiéis no santuário e marcou os 324 anos da aparição de Nossa Senhora da Aparecida, cuja tradição local remonta a 1702. O momento mais simbólico da celebração foi a recolocação da coroa de prata — oferecida por D. Pedro II em 1706 — na imagem da Virgem, depois de a peça ter sido recuperada pela Polícia Judiciária em 2025 e entregue oficialmente para o ato público.
A entrega material da coroa foi feita por Duarte Pio, duque de Bragança, que participou na recoroação e colocou, simbolicamente, o objeto nas mãos do Arcebispo, que procedeu à sua consagração e posterior colocação na cabeça da santa. A cerimónia, de natureza religiosa e comunitária, representa também o restauro de um elemento do património religioso local cuja ausência, desde o roubo em 1986, era sentida pela comunidade.
Peregrinação e dinâmica pastoral
A Peregrinação Interdiocesana congregou fiéis das dioceses de Braga e de Viana do Castelo e prolongou-se por actividades ao longo de sexta-feira e sábado. Entre as iniciativas promovidas estiveram procissões, caminhadas e celebrações que atraíram devotos de diversos pontos do Norte. A recuperação e devolução da coroa potenciou a afluência e conferiu à jornada um significado acrescido, ligado à restituição de um bem com valor histórico e religioso para Balugães e Barcelos.
- Recoroação durante eucaristia campal presidida pelo Arcebispo de Braga;
- Entrega da coroa histórica por Duarte Pio, duque de Bragança;
- Peregrinação com participantes das dioceses de Braga e Viana do Castelo;
- Atividades religiosas e procissões ao longo de dois dias.
«João Mudo»
A tradição local recorda que a devoção em Balugães nasceu em 1702, quando a Virgem terá aparecido a João Alves, conhecido pela população como «João Mudo», e lhe terá restituído a fala. Desde então, o local tornou-se um polo de peregrinação mariana no Norte do país, com impacto cultural e económico para o concelho de Barcelos — especialmente nas freguesias limítrofes e no comércio local ligado ao turismo religioso.
Impactos locais e patrimoniais
Para Barcelos, a recoroação reforça a centralidade do Santuário de Balugães no mapa do turismo religioso e da memória coletiva. A devolução de um artefacto datado de inícios do século XVIII não é apenas um gesto litúrgico: trata-se da restituição de um elemento de identidade local que poderá atrair maior visibilidade e potenciar iniciativas de valorização patrimonial.
Além do significado simbólico e espiritual, o retorno da coroa poderá ter consequências práticas na promoção de visitas e na economia local, ao estimular os circuitos de peregrinação e o movimento nos serviços e comércio da região. A presença de figuras públicas, como o duque de Bragança, conferiu ainda maior eco mediático ao evento.
| Acontecimento | Data |
|---|---|
| Aparição tradicional de Nossa Senhora da Aparecida | 1702 |
| Oferta da coroa por D. Pedro II | 1706 |
| Roubo da coroa | 1986 |
| Recuperação pela Polícia Judiciária | 2025 |
| Recoroação e celebração | 2026 |
O episódio reabre debate sobre a proteção de bens religiosos e a necessidade de mecanismos que assegurem a preservação do património móvel das igrejas e santuários, tema que poderá ser objecto de atenções futuras por parte das autoridades e das próprias paróquias. Para já, a comunidade de Balugães e os peregrinos celebram o restabelecimento de um símbolo que, há séculos, faz parte da história religiosa de Barcelos.