Economia Funchal Madeira

ADN propõe que Estado assegure 75% da compensação do ferry e limita contribuição regional a 25%

O partido pede concurso internacional, transparência das contas e uma salvaguarda de pelo menos 200 milhões de euros para as restantes responsabilidades da Região, a preços de 2026.

ADN propõe que Estado assegure 75% da compensação do ferry e limita contribuição regional a 25%
©Ilustração Ricardo Freitas Câmara / we-news.com

O ADN da Madeira apresentou uma proposta que reserva à República, pelo menos, 75% da compensação anual líquida pelo serviço de ferry entre a Região e o continente, limitando a participação regional até um máximo de 25%. A iniciativa defende igualmente que a ligação seja prestada por concurso internacional e que as contas do processo sejam transparentes.

Serviço público, ano inteiro e para diferentes tipos de tráfego

Em nota enviada à imprensa, a dirigente regional Maíza Fernandes propõe que a ligação marítima passe a ter a natureza de serviço público de continuidade territorial, assegurada durante todo o ano para passageiros, viaturas e carga. Para o ADN, a garantia deve assentar num procedimento concursal aberto internacionalmente, evitando soluções ad hoc.

«A continuidade territorial entre a Madeira e o continente não pode ser tratada como responsabilidade exclusivamente regional. A Madeira deve participar no esforço, mas a República tem uma responsabilidade nacional que não pode ser afastada».

O partido sublinha que a participação regional «deverá resultar prioritariamente do acréscimo que venha a ser obtido através de uma actualização ou revisão das relações financeiras entre o Estado e a Região, realizada pelos instrumentos legais e orçamentais competentes».

Protecção orçamental para a Região

O ADN exige que, caso seja necessário recorrer a transferências já existentes, a comparticipação do ferry não possa reduzir os recursos destinados às restantes responsabilidades regionais abaixo de um piso. Para esse efeito, propõe-se uma salvaguarda de pelo menos 200 milhões de euros, a preços de 2026 e com actualizações subsequentes, disponíveis para outras despesas públicas da Região.

Na mesma nota, o partido lembra que a Madeira, em 2026, recebe cerca de 214,36 milhões de euros ao abrigo do artigo 48.º da Lei das Finanças das Regiões Autónomas e afirma que esse montante não pode ser reduzido para financiar o ferry.

Argumentos e preocupações

O ADN defende que a continuidade territorial não pode recair exclusivamente sobre os cofres regionais, lembrando a natureza nacional do direito à ligação. Embora aceite que a Região participe no esforço financeiro, o partido condiciona essa contribuição a mecanismos que não comprometam outros serviços públicos essenciais.

Os pontos centrais da proposta incluem:

  • A realização de um concurso internacional para a concessão do serviço;
  • A repartição dos encargos com a República a assumir pelo menos 75% da compensação líquida anual;
  • A limitação da participação regional até 25% e a proteção de um mínimo de 200 milhões de euros para outras competências regionais;
  • Transparência nas contas e utilização de instrumentos legais e orçamentais para actualizar relações financeiras entre Estado e Região.

Impacto local e próximos passos

Se acolhida, a proposta implicaria negociações entre o Governo Regional e o Governo da República sobre mecanismos de financiamento e revisão das relações financeiras previstas na lei. A aposta num concurso internacional pode aumentar a concorrência entre operadores e, em teoria, optimizar custos, mas abrirá um ciclo de avaliações técnicas e económicas que exigirá definição clara de cláusulas de serviço público (frequência, capacidade, épocas de maior procura) e regras de remuneração.

Para a Madeira, ilha dependente de ligações marítimas e aéreas, a forma de financiar a travessia com o continente tem implicações directas na disponibilidade de recursos para saúde, educação, transportes regionais e outros serviços. A exigência de que não se reduza a verba associada ao artigo 48.º traduz a preocupação de que o esforço com o ferry não esgote verbas essenciais já previstas no orçamento regional.

Contexto e urgência

Num arquipélago onde o clima e a geografia ditam grande parte das decisões públicas, a proposta surge num momento em que se discute a melhor forma de assegurar a mobilidade e a logística de bens e pessoas. O ADN pede celeridade na abertura do concurso internacional e transparência para que o processo possa ser acompanhado por deputados, órgãos regionais e sociedade civil.

Resta agora saber como o Executivo Regional e o Governo da República vão reagir à proposta, se admitirão a divisão 75/25 sugerida e que condições serão definidas para garantir que o serviço não compromete outras prioridades da Região.

ItemProposta do ADN
Participação da República≥ 75% da compensação líquida anual
Participação da RegiãoAté 25%, preferencialmente via revisão das relações financeiras
SalvaguardaMin. 200 milhões € (preços de 2026, actualizáveis)
ModalidadeConcurso internacional, serviço público contínuo

O assunto promete marcar o debate político regional nas próximas semanas, à medida que partidos, governos e operadores transportam para a mesa questões cruciais sobre financiamento, autonomia e solidariedade nacional — temas que, na Madeira, se medem sempre também pela dependência estrutural das ligações com o continente e pela necessidade de preservar recursos para a vida quotidiana na ilha.

Ricardo Freitas Câmara
Ricardo IA Correspondente na Madeira online

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