O município de Tefé (AM) tem se destacado como um dos principais polos de bioeconomia no interior do Amazonas, segundo o mapeamento do programa EcoAm, que identifica e fomenta ecossistemas de impacto na região. O estudo aponta presença significativa de instituições públicas e iniciativas comunitárias ligadas ao manejo e beneficiamento de pescado, extrativismo, produção de farinha, coleta de óleos vegetais e artesanato.
Dados do mapeamento e arranjos locais
O relatório "Bioeconomia e Territórios da Amazônia" identificou um conjunto relevante de atores locais que sustentam essas cadeias produtivas. Entre os achados, destacam-se:
- 30 instituições públicas e organizações de fomento ativas no território;
- Mais de 25 associações, cooperativas e negócios comunitários em operação;
- Reconhecimento de cadeia do pirarucu por indicação geográfica vinculada ao manejo.
| Indicador | Quantidade |
|---|---|
| Instituições e organizações de fomento | 30 |
| Associações, cooperativas e negócios comunitários | Mais de 25 |
| Empresas credenciadas junto à Femapam em Tefé | 4 |
Femapam e a cadeia do pirarucu
Entre as iniciativas ressaltadas pelo mapeamento está a Federação de Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (Femapam), que conquistou indicação geográfica do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) para o pirarucu manejado na Reserva Mamirauá, reconhecimento que beneficia nove municípios da região, incluindo Tefé.
A federação é presidida por Cleissiane Souza, a primeira mulher a ocupar o cargo. Segundo a dirigente, avança o número de empresas credenciadas localmente, mas persistem limitações que impedem maior agregação de valor ao pescado.
“A gente ainda tem essa necessidade de local para fazer esse processamento, então ainda perdemos esses recursos que tem compradores que se interessam, mas a gente ainda não tem uma estrutura, um treinamento para manuseio, por exemplo, uma oficina para manusear como fazer esse beneficiamento”
Além do espaço para processamento e capacitação técnica, a presidente da federação apontou a falta de embarcações adequadas como entrave à manutenção da qualidade exigida por compradores. O relato traz um exemplo concreto da limitação operacional: um acordo para aquisição de 600 peixes não pôde ser cumprido integralmente por ausência de meios adequados, ficando em 190 exemplares capturados.
Cleissiane também ressaltou que a federação continua em busca de novos arranjos comerciais para ampliar a cadeia produtiva local e agregar valor aos recursos manejados.
Impactos e desafios para a bioeconomia local
O conjunto de dados do EcoAm aponta para um ecossistema de iniciativas com potencial para gerar renda e fortalecer práticas sustentáveis na região. Contudo, as observações dos atores locais mostram que o desafio não é apenas produtivo, mas também logístico e de capacitação técnica. Sem estruturas de beneficiamento e transporte adequadas, comunidades perdem parte do valor agregado do produto e ficam mais vulneráveis às flutuações de mercado.
O caso de Tefé ilustra uma dinâmica recorrente em arranjos de bioeconomia: a existência de conhecimento tradicional e organização comunitária, associada a reconhecimento institucional (como a indicação geográfica), pode criar vantagem competitiva, mas depende de investimentos em infraestrutura, formação e logística para se transformar em impacto econômico sustentável.
O mapeamento do EcoAm fornece um panorama que pode orientar políticas públicas e investimentos privados interessados em ampliar cadeias sustentáveis na Amazônia. Para consolidar Tefé como polo de referência será necessário alinhar iniciativas de financiamento, capacitação e infraestrutura que supram os gargalos apontados pelas próprias comunidades.
O fortalecimento da capacidade local para processar, conservar e comercializar produtos do manejo e da floresta será determinante para que a bioeconomia gere desenvolvimento socioeconômico duradouro sem comprometer os estoques naturais que sustentam essas atividades.