O Brasil registrou melhora em 71% dos indicadores monitorados pelo Relatório 2026 do Observatório Brasileiro das Desigualdades, segundo o Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades. Apesar dos avanços em áreas ambientais, sociais e de segurança, o levantamento identifica retrocessos relevantes, entre eles o aumento da participação dos ganhos do 1% mais rico da população em 2025 e o crescimento do número de pessoas que vivem em áreas de risco de deslizamento e tragédias climáticas.
Panorama geral
Dos 48 indicadores acompanhados pela iniciativa, 34 mostraram melhora, 6 ficaram estáveis e 8 apresentaram piora. Entre os avanços mais destacados estão a queda do desmatamento, a redução de emissões por uso da terra, diminuição da insegurança alimentar e queda nos homicídios entre jovens.
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Indicadores com melhora | 71% (34 de 48) |
| Estáveis | 13% (6 de 48) |
| Pioraram | 16% (8 de 48) |
Resultados ambientais e sociais
O relatório cita uma redução expressiva do desmatamento: após o pico de 2,1 milhões de hectares desmatados em 2022, a área caiu para 984,8 mil hectares em 2025, o que representa uma diminuição de 53,4% frente ao maior nível da série histórica, segundo dados do Mapbiomas.
Na mesma direção, as emissões de gases de efeito estufa decorrentes de uso da terra e florestas tiveram queda entre 2023 e 2024: o volume passou de 1,34 bilhão para 905,6 milhões de toneladas de CO2, redução de 32,5%, segundo informações do Observatório do Clima.
No campo social, a proporção de brasileiros em domicílios com insegurança alimentar moderada ou grave diminuiu de 9,5% em 2023 para 7,7% em 2024. A queda foi mais acentuada entre a população negra: entre homens negros a insegurança foi de 12,2% para 9,7% e entre mulheres negras de 12,5% para 10%, com base em dados do IBGE compilados pelo Observatório.
Outra mudança positiva apontada é a redução dos homicídios entre jovens de 15 a 29 anos, que caíram de 49,7 para 41,9 por 100 mil habitantes entre 2021 e 2024, uma queda de 15,7%.
Retrocesso em desigualdade e riscos climáticos
O documento também registra problemas persistentes: a concentração de renda segue elevada e, em 2025, os ganhos do grupo mais rico ampliaram-se, um sinal de que os benefícios do crescimento e das políticas públicas não foram distribuídos de forma equitativa. Além disso, o principal retrocesso identificado foi o aumento do número de pessoas vivendo em áreas vulneráveis a deslizamentos e outras tragédias climáticas.
- Melhorias relevantes: desmatamento, emissões por uso da terra, insegurança alimentar, homicídios entre jovens.
- Pontos de atenção: concentração de renda e aumento da população em áreas de risco climático.
- Distribuição dos ganhos: avanços nem sempre beneficiam igualmente todos os segmentos da população.
Consequências e desafios para a agenda econômica
Os resultados têm implicações diretas para políticas públicas e para o desenho da agenda econômica. Melhoras ambientais e na segurança alimentar podem reduzir custos sociais e abrir espaço para investimentos sustentáveis, ao passo que a persistente concentração de renda pode limitar consumo e enfraquecer o efeito multiplicador do crescimento. O aumento da população em áreas de risco exige políticas de adaptação climática e investimentos em infraestrutura e habitação, com impacto orçamentário e necessidade de priorização de recursos.
Em termos práticos, avanços como a queda do desmatamento e das emissões favorecem compromissos climáticos e podem melhorar a imagem do país frente a investidores interessados em sustentabilidade. Já a persistência da desigualdade e o avanço dos ganhos concentrados entre os mais ricos mantêm pressão política por medidas redistributivas e por políticas de proteção social mais eficazes.
O relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades oferece, portanto, um diagnóstico misto: progressos palpáveis em indicadores cruciais, mas sinais claros de que o crescimento e os ganhos de políticas públicas ainda não alcançam ampla redistribuição nem eliminam vulnerabilidades estruturais. A forma como governo, Congresso e setor privado reagirão a esse diagnóstico será determinante para a trajetória econômica e social do país nos próximos anos.