Um projeto de lei que prevê a diminuição da área de proteção no litoral de Santa Catarina provocou reação entre pesquisadores que monitoram a baleia-franca-austral, espécie que ainda concentra sua reprodução nas águas brasileiras. A proposta avança em instâncias locais e preocupa especialistas envolvidos na recuperação da população, considerada símbolo de recuperação após séculos de caça.
Recuperação histórica e risco atual
Classificada por décadas como praticamente extinta no país, a baleia-franca-austral reapareceu nas costas brasileiras em 1982, quando uma mãe e seu filhote foram observados em Imbituba (SC). Desde então, programas de monitoramento têm acompanhado a presença anual da espécie no litoral sul catarinense durante a época reprodutiva, quando as fêmeas se deslocam milhares de quilômetros desde áreas de alimentação na Antártica.
Segundo o projeto ProFRANCA, vinculado ao Instituto Australis, a população que frequenta o litoral brasileiro é estimada em cerca de 800 indivíduos e cresce a uma taxa média de 4,8% ao ano. Em 2025 a espécie teve sua situação na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção reclassificada, saindo da categoria "em perigo" para "vulnerável".
Contexto histórico
A baleia recebeu o nome popular de "baleia-certa" em inglês ("right whale") por ter sido considerada o alvo ideal para a caça: sua camada espessa de gordura era transformada em óleo para iluminação. No Brasil, a prática começou oficialmente em 1602 e persistiu até 1985, quando o governo federal suspendeu as autorizações de caça. Ao longo de quase quatro séculos, a atividade foi economicamente relevante e deixou marcas profundas na distribuição da espécie no Atlântico Sul.
"A atividade era bastante cruel. Arpoavam o filhote, que é mais curioso, para atrair a mãe",
diz a bióloga Karina Groch, diretora de Pesquisa do Projeto Franca Austral (ProFRANCA).
Preocupações científicas e implicações
Pesquisadores alertam que a redução de áreas protegidas pode comprometer fatores críticos para a reprodução e sobrevivência dos filhotes, sobretudo por concentrar a população em uma faixa litoral restrita. A população brasileira permanece focalizada em Santa Catarina, e embora a tendência seja de crescimento, especialistas lembram que a recuperação ainda é frágil frente a pressões antrópicas.
- População estimada: cerca de 800 indivíduos que visitam o litoral brasileiro;
- Taxa anual de crescimento: 4,8% (média observada pelo ProFRANCA);
- Situação em listas oficiais: reclassificada de "em perigo" para "vulnerável" em 2025.
Especialistas envolvidos no monitoramento destacam que, embora o avanço na reclassificação represente progresso, medidas de proteção costeeiras continuam essenciais para reduzir riscos como colisões com embarcações, emalhes em redes de pesca e alterações de habitat.
Dados essenciais
| Dado | Valor |
|---|---|
| Estimativa de indivíduos no litoral brasileiro | ~800 |
| Crescimento anual médio | 4,8% |
| Reclassificação em 2025 | "Em perigo" → "Vulnerável" |
O debate sobre o projeto que reduz a área de proteção em Santa Catarina ocorre em um momento em que a memória genética e cultural da espécie foi apontada como fator que atraiu indivíduos de volta à região após a drástica redução populacional causada pela caça. A comunidade científica acompanha os desdobramentos legais e técnicos com atenção, ressaltando que qualquer alteração nas zonas protegidas deve considerar dados de longo prazo e os impactos sobre as rotas reprodutivas da espécie.
Fontes ligadas à pesquisa marinha e aos projetos de conservação têm pedido que decisões sobre áreas costeiras levem em conta o histórico de quase extinção e o caráter ainda vulnerável da população, evitando comprometer avanços consolidados nas últimas décadas.