Um projeto-piloto que avalia o uso de gás natural na secagem do café conilon foi apresentado no Vitória Coffee Summit 2026 como alternativa ao modelo tradicional à base de lenha. Desenvolvida em condições reais de produção em uma fazenda de Linhares (ES), a pesquisa envolve empresas, instituições públicas e produtores e recebeu investimento de pouco mais de R$ 1 milhão para um ciclo previsto de 12 meses.
Objetivo e escopo do teste
A iniciativa, conduzida por ES Gás em parceria com o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), JDE Peet’s e Base 27, com aprovação e acompanhamento da Agência de Regulação de Serviços Públicos do Espírito Santo (ARSP), compara o desempenho de três secadores alimentados a gás natural com três secadores movidos a lenha. Entre maio e agosto desta safra foram acompanhadas aproximadamente 9.400 sacas, com registro de parâmetros técnicos e análises laboratoriais e sensoriais.
O que está sendo medido
O monitoramento inclui variáveis operacionais e de qualidade que dizem diretamente à produtividade e ao custo de produção:
- Temperatura de secagem (testes realizados na faixa de 120°C a 140°C).
- Consumo de gás.
- Tempo total de secagem.
- Grau de maturação dos grãos.
- Análises laboratoriais e avaliação sensorial do produto final.
Motivações e potenciais ganhos
Os organizadores descrevem o uso do gás natural como uma alternativa ao modelo tradicional que depende de abastecimento manual e contínuo das fornalhas, logística de transporte e armazenamento de lenha e exposição dos trabalhadores a riscos ergonômicos. Entre os objetivos práticos do projeto estão:
- reduzir a necessidade de manejo contínuo do combustível nas secagens;
- diminuir riscos de saúde e segurança associados ao manuseio de lenha;
- potencialmente aumentar a eficiência e a produtividade operacional;
- avaliar impactos na qualidade sensorial do conilon.
Logística, limitações e riscos
O gás natural utilizado nos testes é transportado por via terrestre até a propriedade em carreta, o que coloca em foco questões logísticas e custos fora da porteira da fazenda. Apesar de apresentar vantagens operacionais em termos de automação e controle de temperatura, o uso do gás demanda análise sobre:
- viabilidade econômica quando considerada a infraestrutura de distribuição em regiões rurais;
- empreendimento na cadeia de abastecimento e custos de transporte;
- dependência de insumo fóssil e implicações ambientais frente a alternativas renováveis;
- adaptação de mão de obra e impactos no emprego local tradicionalmente ligado ao manejo de lenha.
Participantes e apresentação pública
Os primeiros resultados foram apresentados no Vitória Coffee Summit, realizado no Cais das Artes, em Vitória, evento que comemorou os 80 anos do CCCV e contou com palestrantes e representantes do Brasil, Vietnã, Estados Unidos e Colômbia. A exposição dos dados reuniu representantes do CCCV, da JDE Peet’s, do Ifes, da ES Gás e do produtor que cedeu a infraestrutura para os testes — a Fazenda Chapadão — ressaltando a natureza colaborativa entre setor privado, instituições técnicas e regulação pública.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Início da pesquisa | Safra de conilon (ano corrente) |
| Duração prevista | 12 meses |
| Investimento | pouco mais de R$ 1 milhão |
| Volume monitorado | cerca de 9.400 sacas |
| Configuração testada | 3 secadores a gás vs 3 secadores a lenha |
O estágio atual da pesquisa entrega indicações preliminares sobre performance e eficiência, mas não encerra a análise sobre custo-benefício, sustentabilidade e adequação em larga escala. A seguir, os dados laboratoriais e as avaliações sensoriais irão balizar decisões sobre potência de aquecimento, tempos ótimos de secagem e eventuais ajustes para preservar qualidade do grão.
Para além do resultado técnico imediato, o projeto levanta um debate mais amplo sobre a modernização da secagem de café no Brasil: como compatibilizar aumento de produtividade, bem-estar do trabalhador, custo de logística e metas ambientais em uma cadeia produtiva que tem forte presença regional e impacto social.