Em um ano marcado por eventos climáticos extremos no Brasil e no mundo, a pauta ambiental praticamente desapareceu dos programas dos principais candidatos à Presidência da República, segundo reportagem que analisou os textos apresentados pelas campanhas. Às vésperas das eleições de 2026, a discussão sobre mudanças climáticas e políticas de mitigação e adaptação não tem ocupado espaço relevante no debate eleitoral.
Eventos climáticos e ausência do tema
O país viveu episódios severos de clima em 2026: enchentes e ciclones afetaram as regiões Sul e Sudeste, enquanto há risco de uma nova seca extrema na região Norte. No cenário internacional, recordes de temperatura no hemisfério Norte e desastres como enchentes no Nepal e no Tibete também atestam a intensificação dos extremos climáticos. Apesar desse contexto, os planos de governo dos candidatos, em sua maioria, trazem propostas vagas sobre o tema e carecem de detalhes sobre pontos centrais, como redução de emissões de gases de efeito estufa e estratégias de adaptação.
Como as campanhas tratam o tema
Entre os seis nomes apontados como principais na corrida presidencial, apenas o atual mandatário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apresenta uma proposta que a reportagem classifica como compatível com o desafio climático. Para os demais — Flávio Bolsonaro (PL), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) —, a agenda climática aparece de forma genérica e, em muitos casos, sem metas claras para redução de emissões ou planos detalhados de adaptação territorial.
| Nome | Partido |
|---|---|
| Luiz Inácio Lula da Silva | PT |
| Flávio Bolsonaro | PL |
| Augusto Cury | Avante |
| Renan Santos | Missão |
| Ronaldo Caiado | PSD |
| Romeu Zema | Novo |
Percepção pública e prioridade eleitoral
Pesquisa encomendada ao instituto Ipsos pelo Observatório do Clima, rede que reúne quase 200 organizações socioambientais, aponta que 91% dos brasileiros consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar a crise climática. Ainda assim, a campanha tem sido dominada por outros temas: a maior crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal concentrou grande parte da atenção do noticiário e do debate público, reduzindo o espaço dedicado às questões ambientais.
Vozes acadêmicas e conexão com o cotidiano
Especialistas consultados pela reportagem destacam que a ausência do tema nas campanhas não reflete desinteresse da população, mas sim a dificuldade de traduzir a questão climática em pautas cotidianas que mobilizem o eleitorado. A professora de sociologia ambiental da Unicamp, Leila da Costa Ferreira, frisou que é preciso trazer o assunto para o cotidiano das pessoas, mostrando como eventos extremos impactam diretamente a vida local. Em suas palavras:
"Quando se fala disso, fica uma coisa que parece estratosférica, parece que é em outro planeta. Não é: é aqui no seu quintal, na sua cidade e no seu estado, no seu país — e é global".
Consequências da omissão
A ausência de propostas detalhadas na agenda dos candidatos representa um desafio para a formulação de políticas públicas robustas após as eleições. Sem compromissos claros sobre metas de redução de emissões, financiamento para adaptação e medidas de gestão de risco, o país corre o risco de ficar despreparado para os impactos já verificados — como eventos extremos que afetam infraestrutura, agricultura, saúde pública e populações vulneráveis.
- Contexto climático: enchentes e ciclones no Sul e Sudeste; risco de seca extrema no Norte; recordes de temperatura no hemisfério Norte.
- Agenda eleitoral: apenas um dos seis principais candidatos tem proposta considerada compatível com o desafio climático.
- Opinião pública: 91% dos brasileiros consideram importante propostas sobre mudanças climáticas.
O quadro ressalta a urgência de incorporar o debate climático ao centro das discussões eleitorais, não apenas como tema técnico, mas como pauta que afeta diretamente serviços públicos, economia e a vida cotidiana das populações mais expostas aos riscos climáticos. A cobertura continua acompanhando eventuais desdobramentos nas plataformas dos candidatos e a reação de setores da sociedade civil e científica.