Saúde

Mudanças em cálculo da RCL no projeto de combustíveis podem reduzir gastos com saúde em até R$ 8 bi em 2027

Especialistas estimam que a retirada de receita de petróleo da base da Receita Corrente Líquida deve reduzir o crescimento da despesa em saúde no próximo ano, mas medida não resolve desequilíbrios fiscais.

Mudanças em cálculo da RCL no projeto de combustíveis podem reduzir gastos com saúde em até R$ 8 bi em 2027
©Ilustração IA Camila Torres Villela / we-news.com

As alterações incluídas no projeto de lei sobre combustíveis, aprovadas recentemente pelo Congresso, podem reduzir o ritmo de crescimento das despesas com saúde no ano de 2027, segundo cálculos de analistas econômicos consultados pela reportagem. A principal mudança prevista no texto é a exclusão de parte da arrecadação com petróleo da base de cálculo da Receita Corrente Líquida (RCL), índice usado para determinar gastos obrigatórios, entre eles os recursos vinculados à saúde.

Estimativas de impacto

De acordo com o economista Tiago Sbardelotto, da XP, a alteração na composição da RCL deve resultar em uma redução de cerca de R$ 8 bilhões nas despesas em saúde em 2027, na comparação com o cenário em que a regra atual fosse mantida. Segundo ele, a mudança remove um ganho com petróleo que tende a aumentar nos próximos anos:

“A mudança na RCL tem um impacto bem claro, retirando um ganho com petróleo que deve atingir R$ 30 bilhões este ano, com estimativa de aumentar para entre R$ 45 bilhões e R$ 50 bilhões no próximo ano.”

Outro analista, Renan Martins, da 4Intelligence, projeta um efeito mais contido, com queda anual da despesa em saúde entre R$ 3 bilhões e R$ 5 bilhões, caso seja mantido o critério de aplicação de 15% da RCL para o setor de saúde. Martins ressalta que apenas uma fração específica dos royalties seria removida da base, o que limitaria a magnitude do impacto.

  • Redução estimada (XP/Sbardelotto): R$ 8 bilhões em 2027
  • Redução estimada (4Intelligence/Renan Martins): R$ 3–5 bilhões por ano
  • Participação atual da saúde na RCL: 15%

Consequências orçamentárias e fiscais

Os especialistas ouvidos destacam que, embora a medida gere economia para o governo no curto prazo, ela é insuficiente para alterar de forma decisiva a trajetória da dívida pública. Sbardelotto observa que a retirada da receita de petróleo da base da RCL oferece maior margem de manobra para a administração do Orçamento e pode abrir espaço para novas despesas não obrigatórias. No entanto, para conter o crescimento da dívida, seriam necessárias medidas fiscais mais profundas, incluindo, segundo ele, a obtenção de superávit primário relevante.

A RCL é estimada em torno de R$ 1,5 trilhão por ano, e os royalties de petróleo representam uma parcela limitada dessa base. Mesmo com receita de petróleo prevista para subir — com projeções entre R$ 45 bilhões e R$ 50 bilhões no próximo ano — a remoção parcial desses recursos da RCL não equaciona sozinho os problemas fiscais de maior alcance.

Analista Estimativa de redução em saúde (2027)
Tiago Sbardelotto (XP) R$ 8 bilhões
Renan Martins (4Intelligence) R$ 3–5 bilhões

Impacto na prestação de serviços

Ao reduzir a base de cálculo usada para vincular recursos, a mudança pode ter efeito direto sobre o volume de recursos federais destinados a Estados e municípios, uma vez que a distribuição de verbas e o cumprimento de gastos constitucionais estão vinculados à RCL. Isso não significa, necessariamente, cortes nominais imediatos em programas, mas pode limitar o crescimento das despesas que já vêm pressionando o orçamento público.

Especialistas e gestores públicos deverão acompanhar a tramitação final do projeto e os critérios exatos de exclusão de receitas para avaliar os efeitos práticos sobre repasses e execução de políticas de saúde. É importante lembrar que, embora a discussão seja técnica e orçamentária, qualquer alteração na base de financiamento da saúde tem potencial impacto sobre a oferta de serviços à população.

Esta reportagem foi produzida com base em análises econômicas divulgadas por consultorias e não substitui orientação técnica de gestão pública ou consulta a profissionais de saúde.

Camila Torres Villela
Camila IA Editora de Saúde online

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