Meio Ambiente

MapBiomas: vegetação nativa cai a 65% do território em 41 anos e El Niño agrava extremos climáticos

Relatório da Coleção 11 do MapBiomas, com mapeamento de 1985 a 2025, aponta perda de cobertura nativa e mostra que El Niño intensificou secas e temporais em vários biomas, com impacto severo em áreas de agropecuária.

MapBiomas: vegetação nativa cai a 65% do território em 41 anos e El Niño agrava extremos climáticos
©Ilustração IA Thiago Munduruku Alves / we-news.com

Em 41 anos de monitoramento (1985–2025), a cobertura de vegetação nativa no Brasil foi reduzida a 65% do território, revela a Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas, divulgada nesta quarta-feira (12). A nova edição combina o mapeamento por 33 classes de uso da terra com dados atmosféricos da plataforma MapBiomas Atmosfera para avaliar também efeitos climáticos, especialmente nos anos de El Niño.

Diagnóstico nacional e metodologia

A coleção apresenta resultados do mapeamento sistemático do país entre 1985 e 2025, organizado em 33 classes que incluem biomas, usos humanos, tipos de vegetação e superfície de água. Nesta edição, os pesquisadores cruzaram esses mapas com informações sobre clima e qualidade do ar para examinar a ocorrência de extremos — como secas e temporais — no trimestre de setembro a novembro durante os anos de El Niño mais intensos.

El Niño e impactos por bioma

Os anos de El Niño analisados foram 1997/98, 2015/16 e 2023/24. Segundo o levantamento, a maior parte dos biomas brasileiros sofreu com déficit de chuvas nesses eventos. As exceções foram o Pampa e parte da Mata Atlântica, onde se observou aumento de precipitação.

Entre os impactos destacados estão:

  • Amazônia: foi o bioma mais afetado pelo déficit hídrico nos três El Niño, com o evento de 2023/24 afetando mais intensamente áreas já destinadas à agropecuária.
  • Pantanal: sofreu de forma drástica no último El Niño, registrando o ano mais seco da série histórica em 2024.
  • Cerrado e porção norte da Mata Atlântica: apresentaram secas progressivamente mais intensas a cada fenômeno, com áreas de vegetação nativa sendo as mais afetadas.
  • Pampa: contabilizou impactos por excesso de chuva nos dois últimos eventos, embora as áreas de agropecuária tenham sido as mais afetadas pelos extremos.
El Niño Principais biomas afetados Impacto observado
1997/98 Amazônia, Cerrado Déficit de chuva generalizado
2015/16 Amazônia, Cerrado, partes da Mata Atlântica Intensificação da seca em áreas nativas
2023/24 Amazônia (agropecuária), Pantanal, Pampa Queda significativa nas precipitações; Pantanal: ano mais seco de série histórica

O relatório aponta que, nas áreas de agropecuária da Amazônia, houve redução média de 178 milímetros na precipitação em relação à média histórica durante o último El Niño (2023/24). Esse déficit concentra impactos sobre produção, disponibilidade hídrica e maior risco de incêndios nas áreas transformadas.

Consequências e contexto

A combinação de perda de vegetação nativa ao longo de quatro décadas com a intensificação de extremos climáticos em anos de El Niño aponta para um cenário de vulnerabilidade crescente. A redução de cobertura nativa pode tornar paisagens mais sensíveis a secas, reduzir a capacidade de retenção hídrica e amplificar efeitos adversos sobre agricultura e comunidades locais.

O cruzamento com a plataforma Atmosfera permite, segundo os organizadores do estudo, identificar onde eventos climáticos extremos têm impacto mais severo — informação relevante para direcionar políticas públicas de prevenção, adaptação e restauração.

É imprescindível que decisões sobre uso do solo incorporem dados de longo prazo como os do MapBiomas, especialmente para priorizar conservação de remanescentes nativos e medidas de adaptação em áreas agrícolas que já demonstram maior sensibilidade às variações climáticas.

O levantamento reforça a urgência de integrar monitoramento ambiental com planejamento territorial e políticas climáticas, buscando reduzir riscos e preservar os serviços ecossistêmicos que suportam produção e bem-estar das populações.

Thiago Munduruku Alves
Thiago IA Editor de Meio Ambiente online

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