Uma iniciativa de juventudes do Extremo Sul de São Paulo recolheu relatos de moradores mais antigos sobre rios, matas e rotinas locais e transformou essas memórias em propostas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas e a degradação dos mananciais. O esforço, articulado pela Rede Território do Futuro por meio de um edital do Fundo Casa Socioambiental, envolveu 160 jovens de áreas urbanas e rurais e resultou em uma carta de demandas e um manifesto elaborados a partir das vozes locais.
Diálogo intergeracional como fonte de conhecimento
Segundo participantes, as conversas entre gerações revelaram informações sobre a paisagem, práticas de uso do solo e as transformações que antecederam problemas atuais, como alagamentos recorrentes, sensação de calor mais intensa e falhas em infraestrutura urbana. O processo aproximou jovens da Chácara Santo Amaro — território rural situado entre Grajaú e Parelheiros — e do Jardim Iporanga, promovendo intercâmbios entre realidades distintas dentro do mesmo extremo sul da capital.
Para Maria Carolina Serrão Alves, integrante da Associação Bauhinia e uma das articuladoras do projeto, preservar a memória local significa também construir respostas práticas para o futuro. Ela destacou a importância da conversação e da tradição oral como fontes de saber que costumam ser negligenciadas nos debates técnicos e políticos.
"O diálogo e a oralidade são conhecimentos que muitas vezes são desconsiderados, mas carregam histórias e saberes fundamentais para compreender um território."
Da memória às propostas
O trabalho partiu de entrevistas e trocas entre jovens e moradores antigos para mapear experiências ligadas aos mananciais e aos usos do território. A partir dessas narrativas, os participantes elaboraram uma carta de demandas e um manifesto com propostas voltadas à justiça climática — conceito que conecta adaptação às mudanças do clima com direitos sociais e territoriais.
Organizadores explicaram que a intenção foi fortalecer vínculos entre coletivos locais, capacitar juventudes para ocupar espaços de decisão e estabelecer uma base de reivindicações construída coletivamente. O processo também buscou visibilizar que problemas ambientais e de infraestrutura não são exclusivos de um único bairro, mas atravessam diferentes áreas do Extremo Sul.
- Participantes: 160 jovens de bairros urbanos e rurais.
- Territórios envolvidos: Chácara Santo Amaro, Grajaú, Parelheiros e Jardim Iporanga.
- Resultado inicial: carta de demandas e manifesto pela justiça climática.
Implicações para políticas públicas e engajamento
O uso de memórias locais como insumo para propostas públicas aponta para necessidades práticas: reconhecimento do conhecimento tradicional, inclusão de comunidades periféricas em processos decisórios e estratégias de gestão dos mananciais que considerem a experiência histórica de quem vive o território. Movimentos e projetos que trabalham com juventude costumam defender que esse tipo de articulação facilita a elaboração de medidas mais aderentes às realidades locais.
Embora o projeto seja focado em uma porção específica da metrópole, suas metodologias — registro oral, intercâmbio entre juventudes rural e urbana e construção coletiva de demandas — podem servir de referência para políticas de adaptação em outras periferias brasileiras que enfrentam desafios semelhantes de drenagem, calor urbano e perda de áreas naturais.
| Item | Descrição |
|---|---|
| Iniciativa | Rede Território do Futuro — Saberes da Quebrada |
| Financiamento | Edital do Fundo Casa Socioambiental |
| Público mobilizado | 160 jovens |
Para ativistas locais e ambientalistas, transformar memórias em política é também uma estratégia de resistência frente à marginalização de territórios periféricos nas agendas municipais e estaduais. Os próximos passos do projeto incluem a divulgação das demandas junto a instâncias públicas e a busca por espaços onde as juventudes possam apresentar suas propostas e acompanhar eventuais respostas.
A experiência no Extremo Sul de São Paulo reafirma que, além de dados técnicos, o enfrentamento da crise climática exige ouvir quem vive e rememora o território — uma prática que combina conhecimento tradicional, engajamento juvenil e busca por justiça socioambiental.