Justiça

Justiça determina nova suspensão de licenças da Sigma Lithium em Minas após ação de comunidade quilombola

A Feam voltou a suspender cinco licenças do complexo da Sigma Lithium em Araçuaí e Itinga, a partir de decisão judicial que acolheu pedido da Federação N’Golo por ausência de consulta prévia à Comunidade Quilombola do Baú.

Justiça determina nova suspensão de licenças da Sigma Lithium em Minas após ação de comunidade quilombola
©Ilustração IA Adriana Peçanha Coutinho / we-news.com

A Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais (Feam) anunciou, no Diário Oficial do Estado desta quinta-feira (24), a suspensão de cinco licenças ambientais do complexo minerário da Sigma Lithium, localizado em Araçuaí e Itinga, no Vale do Jequitinhonha. O ato executivo decorre de decisão da Justiça Federal tomada no início deste mês.

Decisão judicial e fundamento da ação

Em 4 de setembro, o juiz Antonio Lucio Tulio de Oliveira Barbosa, da 6ª Região do Tribunal Regional Federal (TRF-6), acolheu pedido formulado pela Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais, conhecida como N’Golo, e determinou a suspensão das autorizações ambientais em vigor. Na ação, a federação alegou que a mineradora não teria realizado a Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI) com a Comunidade Quilombola do Baú, em Araçuaí, requisito previsto em normativa e em convenções internacionais quando estão em jogo direitos de povos tradicionais.

O pedido da N’Golo também incluía a suspensão das negociações relativas ao Termo de Acordo e Compromisso (TAC) celebrado entre a Sigma e o governo de Minas. O magistrado, contudo, indeferiu a parte que pedia a suspensão do TAC, sem que isso tenha impedido, na prática, o efeito da medida sobre as licenças operacionais.

Licenças afetadas e contexto anterior

Segundo o comunicado publicado pela Feam, entre os alvos da suspensão estão autorizações que contemplam as cavas Norte e Sul do empreendimento e unidades de tratamento de minerais — as chamadas plantas de beneficiamento do minério contendo lítio. No total, cinco licenças tiveram sua vigência embargada.

Item Descrição
Órgão Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam)
Empreendimento Complexo minerário da Sigma Lithium (Araçuaí e Itinga)
Licenças suspensas 5 (incluem cavas Norte e Sul e unidades de tratamento)
Decisão judicial 4 de setembro, TRF-6, a pedido da Federação N’Golo

Esta é a segunda suspensão imposta pela Feam à Sigma no curto prazo. No fim de julho, o órgão ambiental já havia barrado autorizações após técnicos identificarem supostas infrações ambientais. Na ocasião, as licenças foram restabelecidas aproximadamente um mês depois, com base em um TAC firmado entre a mineradora e o governo estadual.

Posição da empresa e implicações

A Sigma comunicou investidores, logo após a decisão judicial, que não havia recebido notificação formal e que suas atividades industriais e de mineração permaneciam em operação. A empresa afirmou, segundo nota aos investidores, entender que suas operações seguiam regulares até a ciência oficial da deliberação.

  • Medida judicial atende a pedido da Federação das Comunidades Quilombolas de MG (N’Golo) por ausência de CLPI.
  • A suspensão atinge cinco licenças, incluindo cavas e plantas de beneficiamento.
  • Há precedente de suspensão em julho, com retomada após TAC entre Sigma e governo mineiro.

Do ponto de vista jurídico, a controvérsia mobiliza temas centrais do direito ambiental e dos direitos dos povos tradicionais: a necessidade de realização da consulta prévia em projetos que possam afetar territórios e modos de vida, e a eficácia de instrumentos administrativos como o TAC frente a decisões de controle jurisdicional. A suspensão implica interrupção das autorizações administrativas, mas não constitui condenação — aplica-se, assim, a presunção de inocência e o direito ao contraditório e à ampla defesa nos processos administrativos e judiciais subsequentes.

O desfecho dependerá das próximas etapas processuais: eventual homologação e cumprimento de exigências pela empresa, apresentação de recursos pelas partes e decisões de instâncias superiores. Enquanto a medida estiver em vigor, o cumprimento das determinações da Feam e da Justiça Federal determinará a continuidade ou não das atividades específicas abrangidas pelas licenças suspensas.

Procurada, a Feam confirmou a publicação no Diário Oficial; a Sigma já havia divulgado comunicado aos investidores citando ausência de notificação formal. A Federação N’Golo que ingressou com a ação é parte interessada na defesa dos direitos das comunidades quilombolas afetadas, em especial a Comunidade do Baú, mencionada na peça judicial.

Adriana Peçanha Coutinho
Adriana IA Editora de Justiça online

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