Política

Especialistas defendem nova política nacional para o gás e criticam 'gas release' da Lei do Gás

Estudo do Ineep aponta que o mecanismo conhecido como 'gas release' não resolve problemas estruturais do setor e pode gerar insegurança jurídica; autores propõem coordenação estatal, regulação e investimentos para tornar o gás mais competitivo e acessível.

Especialistas defendem nova política nacional para o gás e criticam 'gas release' da Lei do Gás
©Ilustração IA Renato Salgado Albuquerque / we-news.com

Um estudo assinado por pesquisadores do Instituto de Estudos Estratégicos e Políticas Públicas (Ineep) afirma que o Brasil precisa de “uma nova política nacional para o gás natural” e critica o mecanismo previsto na Nova Lei do Gás (NLG), de 2021, conhecido como gas release. Segundo os autores, a medida — que obriga agentes dominantes a vender volumes de gás a terceiros, conforme o artigo 33 da lei — limita a atuação da Petrobras, mas não enfrenta os problemas estruturais que determinam os preços e a oferta do combustível.

Críticas centrais ao gas release

Os pesquisadores detalham quatro problemas centrais na proposta de gas release. Eles apontam que a medida:

  • pressupõe que a concorrência se constrói pela redistribuição de moléculas já existentes e que a entrada de novos agentes equivale à criação de concorrência efetiva;
  • considera que a desconcentração, por si só, reduzirá preços, sem avaliar outros componentes que formam o preço do gás;
  • gera insegurança jurídica, colocando em risco projetos existentes;
  • não aborda problemas estruturais da cadeia, como harmonização regulatória e a necessidade de infraestrutura de escoamento, processamento e transporte.

Os autores lembram que o setor de gás é uma indústria de rede, que depende da articulação entre produção, processamento, escoamento, transporte, regaseificação e distribuição. Retirar da Petrobras o papel de coordenadora dessa cadeia, argumentam, não cria automaticamente novos produtores, infraestrutura ou oferta, tampouco amplia investimentos.

O que a proposta altera na prática

Na avaliação do Ineep, impor obrigações de venda por parte de agentes dominantes tende a apenas redistribuir margens entre elos já existentes da cadeia, sem garantir expansão da capacidade produtiva nem investimentos em infraestrutura crítica. Entre as consequências práticas destacadas pelos autores estão:

  • potencial aumento da disputa pela apropriação de margens privadas em cada elo;
  • tratamento do gás como commodity com preços atrelados a indexadores internacionais, mesmo com produção doméstica significativa;
  • maior risco regulatório para investidores e para projetos em desenvolvimento.

Os pesquisadores observam que o Brasil produz cerca de 75% da demanda interna de gás, informação usada para sustentar o argumento de que o país não deveria tratar o combustível apenas como commodity indexado ao mercado externo. Para eles, a modicidade tarifária e a competitividade exigem ação coordenada entre regulação, investimentos e planejamento estatal.

Problema identificado Impacto apontado
Redistribuição de moléculas Não cria concorrência efetiva; apenas realoca oferta existente
Foco só na desconcentração Não garante redução de preços por ignorar outros componentes de custo
Insegurança jurídica Risco para projetos e desincentivo a investimentos
Falta de abordagem estrutural Não resolve carências de infraestrutura e coordenação regulatória

Alternativa proposta: política integrada

Como saída, os autores defendem que o gás natural seja tratado como componente estratégico da infraestrutura energética e industrial do país, com objetivos claros de tornar o combustível mais acessível, competitivo e disponível para o desenvolvimento nacional. Para isso, propõem a combinação de:

  • regulação coerente e harmonizada entre entes federativos e agências reguladoras;
  • planejamento e coordenação estatal para articular a cadeia do gás;
  • políticas de investimento em infraestrutura de escoamento, processamento, transporte e regaseificação.

Segundo o texto, medidas isoladas de desconcentração, como o gas release, podem produzir um efeito paradoxal: ao impor obrigações à Petrobras e gerar insegurança jurídica, elas poderiam reduzir a atratividade de investimentos e, na prática, restringir a expansão da oferta e a redução de preços.

A discussão sobre a política do gás ganha relevância diante da crescente demanda industrial e da necessidade de ordenar investimentos em infraestrutura energética. As proposições do Ineep colocam em evidência a tensão entre instrumentos de mercado para fomentar concorrência e a necessidade de coordenação pública para assegurar oferta e modicidade tarifária.

O debate político e técnico sobre a implementação de instrumentos como o gas release e sobre o papel do Estado e das empresas no setor deverá permanecer no centro das decisões nos próximos anos, dado seu potencial impacto sobre preços industriais, segurança energética e estratégias de desenvolvimento econômico.

Renato Salgado Albuquerque
Renato IA Editor de Política online

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