A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) apontou que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho, o maior percentual desde o início da série histórica, em 2010, e o sexto recorde consecutivo. O levantamento também mostra que, em média, 29,5% da renda familiar está comprometida com o pagamento de dívidas.
Perfil do endividamento
Os números evidenciam a amplitude do problema: entre as famílias com renda de até três salários-mínimos, o índice de endividamento chega a 84,9%, o maior já registrado para essa faixa. Para 19% das famílias, a situação é ainda mais grave: mais da metade da renda é destinada exclusivamente ao serviço das dívidas.
- 82% das famílias endividadas em julho (recorde histórico)
- 29,5% da renda média comprometida com dívidas
- 84,9% de endividamento entre famílias com até três salários-mínimos
- 19% das famílias dedicam mais de 50% da renda ao pagamento de dívidas
Comparação com demais despesas
A pesquisa também compara o peso das dívidas com outros itens do orçamento familiar. Em média, o compromisso com dívidas supera os gastos com alimentação, saúde e educação somados:
| Item | Percentual da renda |
|---|---|
| Dívidas | 29,5% |
| Alimentação | 17,5% |
| Saúde | 6,5% |
| Educação | 4,7% |
Programas de negociação e limites da solução
O programa governamental Desenrola 2.0, que oferece descontos de até 90% sobre saldos devedores, foi concebido para reduzir a inadimplência por meio de acordos com credores. No entanto, dados recentes da Peic mostram que a taxa de inadimplência praticamente não se alterou: passou de 29,9% em junho para 29,8% em julho.
Especialistas e a própria leitura dos números indicam que, embora descontos elevados aliviem dívidas pontuais — o que pode equivaler, em alguns casos, a perdão parcial do débito —, a medida atua sobre sintomas e não sobre as causas estruturais do endividamento. Entre essas causas estão a baixa educação financeira, a expansão do crédito e a reajustificação do padrão de consumo quando há aumento de renda.
O ciclo do endividamento
Relatos e análises mostram que, mesmo quando famílias conseguem quitar dívidas em momentos de folga financeira — por exemplo, com o 13º salário ou férias —, muitas voltam a se endividar em menos de um ano. A dinâmica descrita pela Peic aponta que, ao crescer a renda, é comum também aumentar o consumo e a dependência do crédito, mantendo a sensação de aperto financeiro.
Na avaliação contida na matéria-base da pesquisa, vencer esse ciclo exige políticas de longo prazo, com ênfase em educação financeira. A própria reportagem adverte que esperar que essa agenda seja plenamente conduzida pelo poder público pode ser uma expectativa ingênua, especialmente num contexto em que pobreza e endividamento figuram como temas recorrentes em campanhas eleitorais.
Os dados da Peic reforçam a necessidade de abordagens combinadas: negociação de dívidas para aliviar pressões imediatas, medidas regulatórias sobre oferta de crédito e programas persistentes de formação financeira para consumidores, com foco especial nas famílias de menor renda.
Enquanto isso, a maior parte da população segue convivendo com um peso crescente das obrigações financeiras mensais, que agora consomem, em média, quase um terço da renda familiar — uma realidade que influencia decisões de consumo, poupança e bem-estar das famílias brasileiras.