O agravamento de tensões geopolíticas e restrições internas reacendeu o debate sobre a forte dependência do Brasil em fertilizantes importados, apontada por lideranças do setor como uma fragilidade que pressiona custos e risco de oferta. A avaliação foi feita durante o Fórum Mais Milho, organizado pela Abramilho, em que representantes da cadeia propuseram ações simultâneas para reduzir a exposição externa.
Como as crises externas pressionam preços e disponibilidade
Segundo o diagnóstico apresentado, choques internacionais — como a guerra entre Rússia e Ucrânia e os atuais conflitos no Oriente Médio — voltaram a provocar volatilidade nos preços, com impacto particular sobre os fertilizantes nitrogenados e fosfatados. A região do Golfo, importante no fluxo de gás natural, passou a ser apontada como fator de risco para os nitrogenados; a disponibilidade de enxofre, por sua vez, tem pressionado os fosfatados.
“Primeiro foi a questão da guerra entre Rússia e Ucrânia, que expôs o nosso grande calcanhar de Aquiles em relação à dependência externa, que chegou a 92%. Isso voltou à tona agora com o conflito na região do Golfo. O maior temor veio associado aos nitrogenados, por ser uma região de grande fluxo de gás natural, uma origem relevante de fertilizantes nitrogenados, o que fez com que os preços da ureia chegassem a valores nunca vistos no histórico recente, muito perto do que foi em 2022, quando ocorreu o conflito entre Rússia e Ucrânia”
A fala é de Maciel Silva, diretor-técnico adjunto da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ele destacou que a experiência anterior já havia mostrado o nível elevado de vulnerabilidade do país, estimado em 92% de dependência externa no período analisado.
Entraves internos agravam a situação
Além das causas internacionais, lideranças do agronegócio apontaram fatores domésticos que dificultam a construção de alternativas: custos internos elevados, problemas logísticos, taxa de juros e entraves regulatórios. Essas barreiras, segundo avaliação unânime no fórum, reduzem a competitividade de projetos de industrialização e produção local de insumos, retardando soluções de longo prazo.
Entre os caminhos indicados pela indústria e entidades estão medidas que atuem em frentes distintas, de forma coordenada:
- ampliar a produção nacional de fertilizantes;
- promover bioinsumos e rotas alternativas menos dependentes de matérias-primas importadas;
- reduzir custos estruturais e entraves logísticos;
- acelerar a adoção de tecnologias que elevem produtividade e eficiência do uso de insumos;
- diversificar fornecedores internacionais para mitigar riscos concentrados.
Impactos para produtores e mercado
O movimento de preços observado nos nitrogenados, com a ureia alcançando patamares próximos aos de 2022, tende a elevar os custos de produção, afetando a margem de produtores de culturas intensivas em adubação. A pressão sobre os fosfatados, ligada à oferta de enxofre, reforça a necessidade de estratégias que combinem eficiência de aplicações e alternativas técnicas, como formulações diferentes ou o uso de insumos biológicos quando tecnicamente viáveis.
| Ameaça | Impacto observado |
|---|---|
| Conflitos geopolíticos | Volatilidade nos preços de nitrogenados e fosfatados |
| Dependência externa | Exposição a choques de oferta (estimada em 92%) |
| Entraves domésticos | Dificultam investimentos em produção nacional e aumentam custos |
Especialistas e representantes do setor alertam que não há solução única: a construção de um ambiente mais resiliente exige incentivos para indústria nacional, reformas regulatórias que agilizem investimentos, melhoria logística e financiamento adequado para projetos de transformação produtiva. Ao mesmo tempo, há consenso sobre a importância de políticas públicas e privadas que estimulem pesquisa e a adoção de tecnologias que elevem a eficiência do uso de fertilizantes.
Na visão das lideranças reunidas, avançar nesses eixos é fundamental não só para controlar custos, mas para garantir segurança operacional da safra e reduzir riscos ambientais associados a práticas ineficientes de adubação.
O debate tende a ganhar espaço nas agendas de setor e governo nos próximos meses, à medida que produtores e empresas ajustem contratos, estoques e estratégias de gestão de risco diante do cenário internacional e das limitações internas identificadas.