Especialistas e representantes do setor reunidos no segundo dia do Congresso ANDAV, em São Paulo, apontaram que o agronegócio brasileiro enfrenta um contexto de crédito mais restrito, aumento das recuperações judiciais entre produtores e margens operacionais comprimidas, fatores que complicam investimentos e podem afetar a continuidade da cadeia de abastecimento.
Diagnóstico econômico e impacto na cadeia
Durante as discussões, foi ressaltado que a restrição ao crédito tem se intensificado e reduzido o volume de recursos efetivamente tomados por produtores nos últimos anos. Esse ambiente, segundo os debatedores, tem provocado reação em vários elos da cadeia, desde a produção até os distribuidores e varejistas, que dependem da saúde financeira dos produtores para manter fluxo de mercadorias e contratos.
Os participantes destacaram ainda um aumento nas execuções e recuperações judiciais entre produtores rurais, um sinal de maior fragilidade financeira que eleva o risco para fornecedores de insumos e instituições financeiras que atuam no setor.
Dados que situam o cenário
Na avaliação apresentada no evento, números recentes sobre inadimplência na economia mais ampla ajudam a compor o cenário enfrentado pelo campo:
- 51% dos adultos no Brasil estariam com alguma restrição cadastral;
- 45% a mais de empresas negativadas em comparação com o pico da pandemia.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Adultos com restrição cadastral | 51% |
| Alta de empresas negativadas (vs pico da pandemia) | 45% |
Consequências práticas e risco de desaceleração
Com margens apertadas, ficou explícito que produtores tendem a postergar investimentos em tecnologia, manutenção e expansão de capacidade. Menor acesso a linhas de financiamento e aumento de litígios podem reduzir a oferta de produtos ou elevar custos ao longo da cadeia. Para distribuidores e insumos, o aumento do risco de crédito significa maior custo de capital e necessidade de ajustes nas políticas comerciais.
Os debatedores enfatizaram a importância de preservar a saúde financeira da cadeia produtiva para que o crédito continue chegando ao campo, sobretudo em um momento de incerteza macroeconômica.
Perspectivas e oportunidades setoriais
Apesar dos entraves, o encontro também destacou áreas com potencial de crescimento que podem absorver investimentos e gerar demanda ao setor agrícola. Entre as oportunidades mencionadas estão iniciativas nos biocombustíveis, com destaque para:
- Desenvolvimento do biodiesel a partir do óleo de soja;
- Expansão do etanol tanto de milho quanto de cana.
Essas frentes, segundo os especialistas, representam caminhos para diversificação de mercado e para a geração de valor agregado na produção agrícola, desde que acompanhadas por políticas de crédito e garantias que reduzam o risco para investidores e produtores.
Recomendações e caminhos a seguir
Entre as propostas discutidas no congresso, destacou-se a necessidade de:
- Manter mecanismos que protejam a liquidez da cadeia produtiva;
- Aprimorar instrumentos de mitigação de risco para financiadores e fornecedores;
- Fomentar projetos que aumentem eficiência e reduzam custos de produção, sem abrir mão da sustentabilidade.
O balanço do segundo dia do Congresso ANDAV deixa claro que, para assegurar a continuidade do crescimento do agronegócio, será preciso combinar soluções de mercado, inovação e políticas públicas que garantam acesso a capital em condições compatíveis com os ciclos da atividade rural.
Reportagem produzida para a editoria de Agronegócio.