Em meio a seis meses de hostilidades no Irã que pressionaram os mercados de energia, a China desempenhou papel decisivo para evitar uma escalada maior nos preços do petróleo, segundo Michal Meidan, chefe de pesquisa sobre o país asiático no Instituto de Estudos em Energia de Oxford. A pesquisadora atribui ao planejamento estratégico chinês — sobretudo a diversificação de fornecedores e o uso de estoques — a capacidade de amortecer choques que, em outras circunstâncias, teriam gerado aumentos mais severos.
Como a China amorteceu o choque
Meidan afirma que uma combinação de medidas impediu que a volatilidade do mercado se traduzisse em uma crise global mais ampla. Entre os mecanismos citados estão o esforço por reduzir importações pontuais de petróleo e gás, a utilização de reservas estratégicas e a busca por fontes alternativas de abastecimento. Esses fatores, na visão da pesquisadora, ajudaram a modular o impacto sobre os preços e as expectativas inflacionárias no médio prazo.
“Isso é um problema realmente grande, não é? Não é apenas petróleo e gás. São derivados, matérias-primas petroquímicas, insumos para fertilizantes”.
O efeito não foi uniforme na Ásia: enquanto a China demonstrou resiliência, outros países do Sudeste Asiático enfrentaram maiores dificuldades, incluindo interrupções de energia. Por outro lado, economias como Japão e Coreia contaram com estoques que lhes deram margem de manobra. Meidan citou que o Japão dispõe de mais de 200 dias de estoques como um fator estabilizador.
Implicações para o Brasil
Para o Brasil, a pesquisa indica duas lições práticas. Primeiro, a diversificação de fornecedores — tanto de petróleo quanto de insumos derivados — amplia a capacidade de resposta a choques externos, reduzindo vulnerabilidade a rupturas de oferta. Segundo, a presença de rotas alternativas de abastecimento e a manutenção de estoques permitem ganhos temporais para ajustar política econômica e cadeias produtivas.
- Diversificação: ampliação de fontes reduz exposição a um único ator ou rota.
- Estoques: reservas estratégicas dão fôlego para ajustes em políticas e contratos.
- Transição energética: combustíveis alternativos atuam como amortecedores diante de choques no mercado de óleo e gás.
Meidan também ressaltou que a resiliente atuação chinesa é fruto de políticas deliberadas que combinam planejamento de longo prazo com medidas de curto prazo para estabilizar oferta e preços. Para analistas brasileiros, isso significa que há espaço para o país se beneficiar de realinhamentos comerciais — por exemplo, oferecendo alternativas de suprimento —, mas sem iludir-se quanto aos riscos.
Riscos e disputas geopolíticas
A pesquisadora adverte que a capacidade de a China amortecer choques não elimina a dimensão geopolítica do conflito. A disputa entre potências, em especial entre China e Estados Unidos, pode criar efeitos colaterais que atingem economias como a brasileira, seja por perturbações nas rotas comerciais, seja por pressões sobre investimentos globais no setor de energia.
Em síntese, a mensagem de Meidan é dupla: as ferramentas empregadas pela China ajudaram a segurar o mercado num momento crítico, mas a situação continuaria sensível se essas alavancas fossem mais fracas ou se o conflito se expandisse. Para o Brasil, a recomendação implícita é fortalecer a estratégia de diversificação, manter buffers razoáveis e acompanhar de perto o desenrolar geopolítico que influencia preços e cadeias globais de energia.
| Item | Impacto mencionado |
|---|---|
| Redução de importações pela China | Menor pressão sobre preços |
| Estoques (ex.: Japão) | Instrumento de estabilidade — Japão: >200 dias |
| Fornecedores alternativos | Mitigação de rupturas no curto prazo |
Michal Meidan participa amanhã de palestra no evento ROG.e, principal encontro da indústria petrolífera no país, onde deve ampliar a discussão sobre riscos, oportunidades e estratégias para o setor diante do cenário internacional.